Fique por Dentro

O labor, o trabalho e a ação em Hannah Arendt

a filósofa Hanna Arendt sorrindo.
Publicado em: 27/abril/17   |   Autor: Daniella Boccuto - Cientista Social

 A ideologia que fundamenta o Solidariedade dialoga muito com conceitos da autora Hannah Arendt, uma das mais influentes filosofas políticas do século XX. Ela, uma mulher judia que sobreviveu à 2º Guerra Mundial, passou boa parte de sua juventude apátrida, sentindo na pele a xenofobia por todos os lados: dos alemães por ser judia e dos franceses por ser alemã. Talvez daí a força de uma das suas principais teses: a pluralidade humana como uma de suas qualidades irredutíveis, tese que resgatamos na ideologia partidária. Tratando da questão do trabalho, Arendt conversa com conceitos filosóficos da Antiguidade Grega para analisar o mundo moderno a partir da sua ótica filosófica impactante que se faz relevante até os dias de hoje, na realidade contemporânea que vivemos.

Para Hannah Arendt, a condição de ser humano se desdobra em dois planos: aquele onde as ações têm como intuito a preservação da espécie e aquele onde as ações dizem respeito à individualidade de cada ser. A principal característica de sua análise sobre o trabalho reside nessa distinção entre dois planos: o labor e o trabalho. O primeiro trata de atividades básicas, objetivas, mecânicas, que visam a subsistência. Em si, o labor é um limitador da capacidade criativa humana. Já o segundo nível de atividades, referentes à produção que tem necessidade específica de promover o reconhecimento pessoal perante o social, onde as ações têm sua marca individual e subjetiva é descrita como o trabalho, a obra-fabricação.

A condição humana analisada pela autora está atrelada ao que ela chama de mundo comum, isto é, o mundo real e ativo que é criado pelo trabalho. O mundo comum é construído pelo discurso que dá sentido aos acontecimentos para a coletividade. Nota-se que é o trabalho que constrói esse mundo, não o labor. A condição humana do labor é equivalente à vida em si, entretanto a condição humana do trabalho é a produção para o mundo comum, o mundo tangível criado pelo homem, o mundo que dá sentido ao social e à pluralidade humana. O labor liga-se à reprodução e manutenção desse mundo comum, o trabalho produz valor a ser incorporado na esfera pública afim de reconhecimento pessoal. O trabalho é o próprio construtor do mundo comum. Definidas essas características e distinções, podemos partir para o ponto em que Arendt analisa a modernidade e a vitória do animal laborans (suas experiências e atividades seguem as de um rebanho, do coletivo) sobre o homo faber (capacitado à uma vida pública que seja de construção própria).

Em sua análise do mundo moderno, o que acontece é a sobreposição e o enaltecimento da garantia da vida como bem supremo. A partir daí a idealização do labor atrelada à felicidade, supervalorizando esse tipo de produção. Na mesma direção, há uma falta do direcionamento para o trabalho, para a criação subjetiva do mundo comum. Os indivíduos, apartados da criatividade do trabalho exercem suas ações laborais por meio dos valores difundidos pela esfera social que priorizam a reprodução e manutenção da sua vida. A inversão de "prioridades", por assim dizer, é notada por Hannah com a mudança do sentido de vita activa na Antiguidade e na Modernidade. A vita activa para os gregos da antiga pólis (cidade-estado grega) estava associada à dedicação aos prazeres do corpo, os assuntos pertinentes à polis e a contemplação das coisas eternas, enquanto para nós a vita activa se encontra no extremo oposto, remete ao desassossego, à ação e produção constantes. Como consequência dessa característica da modernidade está a homogeneidade dos discursos, levando a totalitarismos e extremismos.

Para a autora, o discurso é a marca distintiva do homem, uma vez que a permanência dos atos no mundo se dá por meio de narradores capazes de traduzir o sentido dos atos à sociedade. É apenas com as ações, distinta por Hannah como atividades exercidas única, exclusiva e diretamente entre os homens, mediadas pelo discurso, que é possível reverter as consequências do valor do labor e do trabalho nas sociedades modernas.

Privilegiando as ações, que são constitutivas da pluralidade humana, temos a condição primordial para toda e qualquer vida política saudável. Esse é o conceito de pluralidade, alicerceada pela função do discurso na vida humana, é a característica do pensamento arendtiano que é resgatado na ideologia do Solidariedade buscando uma vida política de qualidade e saudável, respeitando e protegendo a pluralidade humana. Neste 1º de Maio, repensar a maneira com que exercemos as nossas relações do trabalho e lutar para que elas se exerçam de forma a não aniquilar a subjetividade, criatividade e contato com a produção do mundo comum, da realidade que fazemos parte é fundamental para uma sociedade saudável.

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