Fique por Dentro

Retratos sobre a violência doméstica e familiar

a imagem mostra um rosto de mulher tendo a boca tapa por duas mãos de homem
Publicado em: 10/maio/17   |   Autor: Adriana Peres e Beatriz Drague

Falar sobre violência doméstica quando se está no lugar de vítima não é uma coisa simples. Vergonha, sentimento de culpa, medo são apenas alguns dos fatores que levam milhares de mulheres a se calar. Fomos em busca de histórias que pudessem nos fazer refletir sobre a violência diária e constante que essa parte maioritária da população sofre. Vulnerabilidade econômica e social podem tornar a situação ainda mais grave ao somar diferentes formas de violência, mas isso não significa que a violência doméstica esteja apenas nas classes mais pobres. Ela permeia as relações sociais e, ao que pudemos observar, o seu combate requer uma ruptura profunda do status quo. De que maneira cada um(a) de nós contribui para perpetuar essa realidade?

Entrevistamos professores, visitamos um albergue na cidade de São Paulo que atende mulheres em situação de vulnerabilidade, conversamos com mulheres vítimas de violência. Demos de cara com a realidade descrita em pesquisas, pessoalmente muito mais cruel e impactante. O resultado disso você confere aí embaixo. Dúvidas, sugestões e complementos, caso você também queira nos contar a sua história ou incluir mais dados, estamos à disposição. Antecipando a resposta da questão deixada acima,  apenas o trabalho coletivo poderá colocar a sociedade brasileira em um novo caminho longe da violência doméstica.

Gênero

Para discutir a violência doméstica e familiar é imprescindível que se coloque em questão os papéis de gênero impostos e desempenhados em nossa sociedade, posto que tais papéis produzem um forte impacto na sociabilidade dos sujeitos.

As desigualdades historicamente construídas proliferam as violências sistêmicas e estruturais contra as mulheres. Tais disparidades estão espalhadas em diversas áreas da vida em comunidade como no campo político, cultural e econômico.

Na atualidade é possível notar uma maior emancipação da mulher frente às atribuições que sempre lhe foram impostas. Com o avanço de direitos e a massiva inserção da mulher no mercado de trabalho, vê-se uma maior discussão em torno das opressões sofridas pelo gênero feminino e tais debates devem-se em grande parte aos movimentos organizados de mulheres que vem se fortalecendo nos últimos anos, visando a eliminação das opressões de gênero e violações aos direitos humanos vinculados à mulher. Entretanto, a violência doméstica, perpetrada em maioria contra as mulheres, ainda persiste na sociedade brasileira sob diversas nuances e intensidades. 

Faces da violência

A Lei nº 11.340/2006, mais conhecida como Lei Maria da Penha, tipifica cinco modos de violência doméstica e familiar, esclarecendo que a violência doméstica abrange vários ângulos da vida da vítima.

Dentre os tipos de violência, encontram-se: a violência psicológica que se caracteriza pelos atos de xingar, humilhar, ameaçar, intimidar e amedrontar; criticar continuamente, desvalorizar os atos e desconsiderar a opinião ou decisão da mulher; debochar publicamente, diminuir sua autoestima; tentar fazer a mulher ficar confusa ou achar que está louca; controlar tudo o que ela faz, quando sai, com quem e aonde vai; usar os filhos para fazer chantagem.

Já a violência física pode ser entendida como os atos de: bater e espancar; empurrar, atirar objetos, sacudir, morder ou puxar os cabelos; mutilar e torturar; usar armas brancas como facas, ferramentas de trabalho, ou de fogo.

Além destes dois tipos de violência, os dois mais recorrentes entre as mulheres, existem outros delitos na vida de milhões de brasileiras. Podendo ser crime de ordem sexual no momento em que se força relações sexuais quando a mulher não quer , quando está dormindo ou sem condições de consentir; ou ainda fazer a mulher olhar imagens pornográficas quando ela não quer; obriga-la a fazer sexo com outra (s) pessoa (s); impedir a mulher de prevenir a gravidez, forçá-la a engravidar ou ainda forçar o aborto quando ela não quiser.

Por sua vez, a  violência patrimonial envolve o controle, a retenção ou a retirada do dinheiro da vítima; causar danos propositais a objetos que ela goste também configura esse tipo de violência. Destruir, reter objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais e outros bens e direitos estão incluídos nessa categoria.

Com a emergência das redes sociais nota-se também um crescimento da violência moral sofrida por mulheres. Esta violência se caracteriza pela prática de humilhação da mulher em ambientes públicos, em redes sociais, na exposição da vida íntima do casal, na acusação pública de crimes que a mulher possa ter cometido. Inventar histórias, falar mal da mulher para outros com o intuito de diminuí-la perante a sociedade também pode ser estabelecido como crime, a partir da Lei Maria da Penha.

O abuso contínuo a partir das mais diversificadas agressões conjugais podem gerar graves consequências nas vítimas, que vão desde dores pelo corpo, passando pela depressão, abortos e tentativas de suicídio.

Uma visita a um centro de acolhimento de mulheres 

  "Violência?", Mariana* ri e complementa, "já sofri muitas".  Assim iniciamos nossa conversa no centro de amparo para mulheres em situação de vulnerabilidade Maria Maria, na zona norte de São Paulo.  O centro conveniado com a prefeitura de São Paulo, gerenciado pela ONG Croph, tem capacidade para atender 134 pessoas, entre mulheres e crianças. Funcionando há 40 anos, o albergue recebe mulheres vindas de outros estados sem ter lugar para ficar, com problemas psiquiátricos, ex moradoras de rua e muitas vítimas de violência doméstica. As histórias são inúmeras.

21 anos e com um filho de poucos meses, enquanto coloca o celular para carregar, Mariana nos pergunta quem somos e que idade temos. "Vocês são jovens, né?". Bermuda jeans, camiseta branca larga, cabelo curto levemente cacheado e uma serenidade no olhar contrasta com as marcas deixadas pelo tempo. Quando explicamos que faremos uma matéria sobre violência doméstica, ela age com indiferença. Violência faz parte do seu cotidiano. Morou em um orfanato quando pequena, em alguns albergues e também na rua, onde relata já ter apanhado várias vezes. "Saí da rua porque engravidei, não podia ter meu filho assim". Sobre o pai da criança ela é objetiva "Tá no processo". Nossa presença ali não parece significar muita coisa e, enquanto um abismo se abre entre as nossas realidades, ela se volta para o celular.

Segundo dados da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, estima-se que as denúncias de violência doméstica e familiar contra a mulher cresceram cerca de 133% entre o primeiro semestre de 2015 e 2016. A Lei Maria da Penha revela que qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial, pode ser considerado caso de violência.

Muitas vezes a violência doméstica leva as vítimas a se culparem devido as violações psicológicas que sofrem. A mulher se vê em um contexto de dependência financeira ou afetiva do parceiro, e se encontra muitas vezes em um relacionamento abusivo. Os filhos também são uma forma de chantagem para que a mulher não tome as providências necessárias para o fim daquela situação. Tantos fatores fazem do fenômeno da violência doméstica algo muito complexo e de difícil compreensão.

Marisa* se aproxima para pedir o carregador, com um shorts jeans curto e uma regata justa com estampas infantis. Olha curiosa para o nosso equipamento, perguntamos se são amigas e ela diz que sim, ao nos contar sobre o lugar onde se conheceram. "Nos conhecemos em um albergue maternal [Marisa não nos responde quando perguntamos sobre o local da instituição]. Depois eu vim para cá e ela acabou vindo também", sorri.

Ela tem 19 anos e uma filha de poucos meses. Quando perguntamos sobre o pai da criança, um pouco receosa, nos responde que ele está na justiça, mas frisa que não teve problemas com o companheiro. A relação jurídica que interpela a amorosa parece ser uma constante na vida dessas mulheres. Ficaríamos sabendo mais tarde que Marisa já havia estado no acolhimento sigiloso, local para onde as mulheres são enviadas quando há risco de vida. Nele, as regras são mais rígidas, impossibilitando as protegidas de sair e manter contato com seus conhecidos. As mulheres assinam um termo de responsabilidade para não divulgar o endereço, conforme nos explicou a psicóloga Aline Leite, que trabalha no centro de acolhimento Maria Maria, com quem conversaríamos mais tarde. Por isso, muitas vezes as mulheres não aguentam e assumem o risco no sistema aberto.

Marisa diz que prefere o Maria Maria "porque aqui elas cuidam da gente, lá, [se referindo ao acolhimento maternal onde teve o seu filho] qualquer coisa elas ameaçavam tirar as crianças. Só não perdi a minha porque não uso drogas, senão já teria perdido ela". Marisa nos relata que a maioria das mulheres que chegam ao acolhimento maternal são usuárias de drogas e que precisam passar por aconselhamento e tratamento. A permanência da guarda depende disso. "Mas às vezes a mulher fazia isso e eles assinavam dizendo que ela não queria ou que não estava melhorando. Um dia uma moça saiu e quando voltou tinham levado o filho dela?. Marisa sabe que na sociedade em que vivemos as palavras de mulheres como ela não valem muita coisa. "Você sabe como é, é a voz deles contra a nossa. Outro dia vieram aqui falar comigo sobre isso e eu falei mesmo, mas o que vão fazer?". Ela se indigna, percebe a violência, mas sabe que nessa luta está na ponta mais fraca.

Estar no albergue é dar de cara com um muro denso e cruel que separa a nossa realidade das entrevistadas. As gerações, apesar de tão próximas, são marcadas por experiências completamente distintas, de  famílias estruturadas à possibilidade de reconhecer-se um ser potente. Os caminhos que nos separam são largos, permeados por possibilidades de escolha que tivemos e teremos ao longo de nossas vidas, possibilidades que nunca chegaram a essas mulheres. Apesar de mulheres nessa sociedade machista, as nuances da violência chegam mais forte para quem está por todos os lados vulnerável.

A violência doméstica ou familiar caracteriza-se por ser a violência inserida no ambiente familiar, velada ou explícita. Nela estão incluídos indivíduos ligados por grau de parentesco civil, sendo estes: marido, mulher, sogra, padrasto; ou parentesco natural, como: pai e mãe, filhos e irmãos. Estão integradas nesse conceito, práticas de violência e abuso sexual contra idosos, contra mulheres, crianças e homens.

Já a violência doméstica e familiar contra a mulher está incorporada na sociedade patriarcal sob diversas formas e intensidades, recorrentes no mundo todo. Os mais variados tipos de violência motivam crimes graves  contra os direitos humanos. No entanto, muitas vezes a mulher é responsabilizada pela violência sofrida e o criminoso absolvido a partir da minimização da gravidade da questão.

Do total de atendimentos realizados pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher, no 1º semestre de 2016, 12,23% (67.962) corresponderam a relatos de violência. Entre esses relatos, 51,06% corresponderam à violência física; 31,10%, violência psicológica; 6,51%, violência moral; 4,86%, cárcere privado; 4,30%, violência sexual; 1,93%, violência patrimonial; e 0,24%, tráfico de pessoas.

Para o pesquisador Marcelo Neumann, psicólogo de formação que atua no Núcleo de Estudos de Violência e Vulnerabilidade (LEVV) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a mulher vive numa situação de transgeracionalidade de violência, onde a repressão é perpetuada de geração a geração, fazendo com que a mulher a perceba como comum. "Muitas vezes ela teve um pai violento, avôs violentos. Quando está na relação com o outro, com um companheiro, ela naturaliza essa violência. Ela pensa que esse é o destino dela".

A naturalização da violência faz com que suas facetas menos explícitas, como é o caso da violência psicológica, passem despercebidas. Marcelo acredita que é necessário empoderar as mulheres para que elas criem mecanismos de identificação que as ajudem a sair dessa situação. "É necessário mostrar que existe uma violência psicológica, ele te xinga, ele te humilha, te constrange na frente dos outros e isso não é legal. Você falar mal e xingar sistematicamente uma pessoa vai minando a autoestima dela. Uma mulher que é chamada de burra, vagabunda, por exemplo, se ela sistematicamente ouve essas coisas, ela cria um autoconceito de si de que ela é isso, cria uma autoimagem ruim dela própria".

A não percepção dessas nuances ou a visão de que são violências menores e que fazem parte da vida conjugal, leva essas mulheres a não denunciar. "É como se fosse algo comum que a leva a pensar: Ah, tudo bem, pelos menos ele não está me batendo".   

Segundo Neumann, mesmo sendo possível perceber avanços, ainda vivemos em pleno século XXI questões dos séculos XVIII e XIX, onde a repressão sobre a mulher era ainda maior. "Para que essa situação mude precisamos dar uma guinada brutal na nossa sociedade. A questão da mulher na vida social ainda é muito embrionária. E a mudança precisa ser feita em diferentes aspectos da sociedade. Precisamos pensar quais são os mecanismos sociais e psicológicos que fazem um homem agredir uma mulher".

"É pra falar sobre a minha vida?". Sim. "Eu já passei em abrigo 10 anos, porque eu apanhava muito do marido da minha tia. Saí do abrigo quando eu tinha 18 anos, aí fui morar na rua. Ai, é, tinha uma casa, só que o pai da minha filha me batia muito, aí eu peguei e fui para o albergue, no albergue eu conheci o pai dela e do menino. Eu apanhava muito. Fiquei 8 anos apanhando". A pedidos da coordenação do albergue, Michele* veio conversar com a gente. Chegou meio sem jeito com seus dois filhos, uma menina de colo, que dormia no carrinho, e um menino com pouco mais de 5 anos, que preferia olhar de longe. Mais uma vez, nossa presença ali era mera casualidade.

Michele nos inicia numa narrativa truncada, mecânica e repleta de violência, não somente daqueles que deveriam lhe apoiar e amar, como também de um Estado ausente. Já teve que trocar de albergue diversas vezes por causa do ex companheiro.  Muitas vezes, quando a mulher está sob medida protetiva e o marido acaba conseguindo vaga em algum centro de acolhimento próximo, ela precisa ser transferida, conforme a própria Michele nos explica. A procura por vagas na creche e escola precisam ser refeitos, numa busca incessante por condições mínimas de sobrevivência, dela e dos filhos.

Antes de começar essa saga ela vivia numa ocupação. Lá, Michele nos conta, tinha uma casa, era dela, como ela faz questão de frisar, mas que foi quebrada pelo companheiro. "Ele quebrou tudo na ocupação por causa do crack". Apanhou até os 8 meses da primeira gravidez e também na segunda, mas foi somente depois de perder a visão que ela resolveu denunciar. Apontando para o olho direito, ela nos conta: ?Não tenho essa visão por causa dele. Ele me deu um soco". A causa? Ciúmes. "Eu estava conversando com um menino de 16 anos e ele me deu um soco, que me deu um trauma, por causa do trauma deu hemorragia na vista. Eu não enxergo nada."  

O homem foi denunciado, mas ficou preso apenas por três dias. "Três dias?" Acabamos não conseguindo segurar a nossa perplexidade. Michele apenas se limitou a continuar como se não entendesse o nosso espanto. "Ele disse que era culpa minha, que fiquei cega por causa da gravidez. Ele diz que não foi ele. Agora ele fala que vai pegar meu filho de mim. A menina não. Ele não aceita filha mulher, ele rejeita, só filho homem que ele aceita." Michele reconhece a diferença primordial entre ela e o ex companheiro. Ele cometeu crime e ela não. Ele está solto e ela não. Ele nasceu homem e ela não. Cansada, ela repete que teve uma casa e hoje vive pulando de albergue em albergue. Os filhos nem sempre conseguem brincar. "No que eu estava antes as crianças não podiam ficar soltas, se a gente saía de perto delas um pouco já ameaçavam tirar a guarda". Antes de nos despedirmos, Michele resume a sua vulnerabilidade e o ciclo que se perpetua na sociedade brasileira: "Queria que ele fosse preso porque o que ele fez comigo ele faz com outra. Ele fica solto e eu fico aqui."

Além dela, milhares de mulheres enfrentam diariamente a violência, em alguns casos não vivem para contar as histórias. De acordo com Mapa da Violência 2015 - Homicídio de Mulheres no Brasil, em pouco mais de 30 anos o número de mulheres vítimas de homicídio aumentou 252%. Dentre as vítimas, as mulheres negras são as prioritárias, assim como a maioria de mulheres que vivem no albergue Maria Maria.

Nos cumprimentamos. Poucas palavras. "Obrigada, Michele". Não tínhamos mais nada para falar. Precisávamos digerir todas aquelas histórias e continuar as entrevistas. Fica um vazio. Uma perplexidade. Um abismo. Nossos caminhos mais uma vez seguiriam por rotas distintas.

Na cidade de São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, não encontramos centros de acolhimento especializados para homens com filhos. Se um pai em situação de vulnerabilidade precisa de ajuda do Estado, ele deverá procurar assistência em albergues que atendam famílias, muitos deles voltados para o que Aline Leite chama de "família Doriana": pai, mãe e filho. Retrato de uma sociedade que ainda delega às mulheres a responsabilidade pela criação dos filhos e muitas vezes da própria agressão sofrida. "Muitas delas chegam aqui e acham que tem culpa do que aconteceu. Temos que fazer todo um trabalho com elas para elas perceberem que vítima é vítima."

Aline é a psicóloga no albergue e faz a triagem das mulheres que chegam ao Maria Maria para direcioná-las às acomodações: quartos para mães com filhos pequenos, sem filhos, para mulheres com problemas psiquiátricos ou para atendimento psicológico (que ocorre fora do centro de acolhimento). Conseguiu nos atender depois da nossa conversa com as mulheres, entre um e-mail e outro que ela precisava responder urgente, e no meio de inúmeros documentos, solicitações, relatórios. Ela nos explica o trabalho desenvolvido no albergue. Para chegar lá as mulheres precisam se inscrever no Centro de Referência de Assistência Social  (CRAS), uma unidade pública estatal de base territorial, localizada em áreas de vulnerabilidade social. Os casos são analisados e encaminhados para o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Essas unidades são responsáveis por encaminhar as pessoas para um centro de acolhimento específico  que tenha vaga, mas nem sempre isso acontece. "Na hora que vocês chegaram como estava lá fora?" Aline nos pergunta. Homens e mulheres deitados em colchões velhos, casais, grupos, todos esperando uma vaga. No mesmo terreno onde se encontra o Maria Maria existem outros centros de acolhimentos para idosos e homens,  também gerenciados pela Croph. Eles possuem espaços específicos, mas as entradas se aproximam. O Maria Maria é separado por um grande portão de ferro.

O albergue fornece alimentação, produtos de higiene básica, segurança, auxilia em questões jurídicas, na procura de serviços de capacitação, vagas em creches e escolas. As mulheres podem permanecer pelo tempo que precisarem, mas são incentivadas a buscar independência. "Queremos que essas mulheres criem autonomia, mas o sistema não ajuda". Há poucos dias antes de nossa visita foi realizada uma reunião com a comunidade do entorno para mostrar o trabalho no centro, ela nos conta. "As pessoas olham lá para fora e criam uma imagem de como as coisas são aqui dentro. Elas acham que só tem vagabundo, que ninguém quer trabalhar." Aline nos mostra uma folha de papel, um ofício de comprovante de endereço que havia sido negado. "Na hora de levar a documentação para começar a trabalhar a empresa barrou. Disse que não aceita esse comprovante. Numa outra situação, uma semana depois de contratada mandaram a moça embora porque viram que ela morava aqui". A independência financeira é essencial para que essas mulheres tenham alguma condição de melhorar a sua situação, mas o preconceito cria um bloqueio.

Perguntamos para Aline qual era o diferencial do Maria Maria, pois todas as mulheres com quem conversamos haviam elogiado o centro, e ela deu de ombros. "Um dia elas elogiam, outro reclamam. Ninguém gosta de estar aqui. Nem aqui, nem em nenhum outro albergue". Aline diz que conheceu a ONG por uma amiga, fez estágio e acabou voltando e há três anos trabalha com assistência. Para ela, muitas coisas ainda precisam mudar para que o trabalho do Maria Maria não se encerre nele mesmo. "Às vezes sinto que estamos enxugando gelo. Elas saem daqui e às vezes voltam pior ainda do que quando chegaram aqui pela primeira vez". 

Entretanto, Aline não é totalmente pessimista. Ela viu avanços desde que entrou. "Apesar de poucas, algumas mulheres hoje chegam aqui com melhor consciência dos seus direitos. O debate aumentou e elas já conseguem perceber melhor o que é uma violência e como pedir ajuda".

Para Mônica de Melo, professora de direito constitucional, coordenadora do grupo de pesquisa sobre direito, gênero e igualdade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e defensora pública do estado de São Paulo, um dos caminhos de combate à violência doméstica é desenvolver uma educação que direcione a sociedade para valores realmente igualitários. Segundo ela, a criação de leis como a Lei Maria da Penha, por exemplo, que se baseiam nesses princípios de igualdade, são muito importantes para dar base à uma nova sociedade.

Entretanto, a pesquisadora enfatiza: será preciso mais do que tê-las no papel. "A lei é aplicada por pessoas e o sistema jurídico reproduz estereótipos de gênero, situações patriarcais. Então, os aplicadores do direito precisam ser sensibilizados, formados e capacitados. Não basta ter lei, é preciso que a lei seja aplicada efetivamente".

Apesar de mulheres em situação de vulnerabilidade social e econômica estarem suscetíveis a diferentes tipos de violência e maior dificuldade para procurar ajuda ou sair dessa situação, a cultura machista e patriarcal na qual a sociedade brasileira está inserida permeia todas as classes sociais, fazendo com que a violência doméstica não fique restrita às camadas mais pobres da população. É necessário ainda apontar que a violência doméstica não está circunscrita apenas nas relações entre companheiros e suas companheiras. Para ilustrar essa questão conversamos com a Marta*, hoje com 45 anos, casada e com duas filhas, uma de 28 e outra com 23. Depois de passados quase 20 anos, ela reconhece que falar sobre o assunto a ajudou a continuar levando a sua vida. Ela aceitou conversar com a gente desde que o seu nome não fosse divulgado, menos para proteger a sua imagem do que a de seus familiares, como ela mesmo faz questão de colocar.

?Eu senti que a Claudia*, minha filha mais nova, estava diferente. Ela começou a ter desmaios e eu passei a leva-la no médico para descobrir se ela estava com alguma doença. Descobri que ela somatiza as coisas, quando ela tem medo ela acaba desmaiando. Então fui perguntando para a Claudia o que ela tinha e depois de muita insistência ela me contou que o meu pai mexia com ela. Meu mundo caiu no chão?.

Casos como esses não são minoria no histórico de agressão, muito pelo contrário, dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que  24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. Entretanto, a sociedade ainda age com surpresa ou incredulidade quando presencia esse tipo de situação. ?Você não espera que isso venha de alguém que você ama, que deveria te proteger?, complementa Marta.

A filha de Marta estava com três anos quando ela descobriu que o próprio pai abusava da neta. "Eu peguei ele pelo pescoço e disse que ele nunca mais ia fazer isso". Foi buscando tratamento para a filha que Marta acabou se dando conta que ela própria tinha sido vítima dessa situação. "Descobri que na realidade ele também fazia isso comigo. Entendeu? Foi uma sequência de fatos que fizeram com que eu me desse conta que ele também tinha abusado de mim, mas que como eu era muito nova minha mente tinha bloqueado. Passei a entender algumas sensações que eu sentia. Quando ele mexia na gente ele manipulava, não existiu penetração, eu me lembro da minha infância de ter essa sensação de algo no meio das minhas pernas. Foram coisas que me marcaram, mas eu não entendia porque eu tinha isso. Por muito tempo eu achei que eu era uma pessoa muito diferente das outras. Com o tempo eu fui percebendo que como eu era muito nova e não sabia o que estava acontecendo, minha parte sexual era bem mais aguçada do que uma criança da minha época".  

O choque maior veio quando Marta tentou buscar apoio com a sua mãe. ?Quando eu contei para minha mãe, ela disse que eu era culpada, porque eu sempre gostei mais do meu pai do que dela, porque eu sempre dei mais atenção para o meu pai do que para ela?.

Ainda é forte no Brasil a mentalidade de que os problemas conjugais devem permanecer no espaço privado, o que dificulta ainda mais a tomada de decisão de denunciar ou buscar ajuda.  A pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres (Ipea, 2014), revelou que 63% dos entrevistados concordam, total ou parcialmente, que ?casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família?. Enquanto que 82% consideram que ?em briga de marido e mulher não se mete a colher?.

Depois da briga os pais de Marta chegaram a se separar, mas voltaram a ficar juntos depois de um ano e meio. Ela nos conta que voltou a conversar com o pai depois desse tempo, mas que nunca o perdoou completamente. Quando perguntamos se ela se arrepende em não ter denunciado, depois do silêncio, ela diz que sim. "Só não o fiz porque minha mãe pediu. O meu lado emocional em relação a ela falou mais alto. Ela dizia para eu pensar em como os vizinhos reagiriam, como ela ficaria. Hoje eu entendo. Ela teve outra educação".

Para Marta, seu pai apenas reproduziu a violência sofrida por ele mesmo na própria infância. "Meu pai ficou em um internato de padres e eu cresci com ele sempre dizendo o que os padres faziam com as crianças. Com certeza eles devem ter feito com ele também. Então ele reproduziu o que ele aprendeu".

Hoje o pai de Marta está paraplégico, resultado de um câncer em estágio avançado e quem cuida dele é a própria filha. "Contratei uma cuidadora para ficar com ele. Eu o tiro da cama, o coloco para dormir, mas dar banho, trocar, essas coisas eu não consigo fazer. " Ela nos mostra que a realidade é muito mais complexa do que podemos imaginar e que a ideia de que o homem agressor é um monstro em todos os aspectos, incapaz de coisas boas, é inexistente. "É como se eu tivesse dois pais, um que eu amo, porque ele tem o lado bom nele, ele era uma pessoa super querida mesmo, uma pessoa comunicativa, sempre me disse que a gente não é melhor do que ninguém, que a gente tem que servir a todos, tratar todas as pessoas iguais. E tem esse lado que é ruim."

Para Marta, o que a ajudou a superar foi falar sobre o assunto. "Uma coisa que me ajudou bastante foi nunca ter retido isso, deixado estagnado. A gente não pode sofrer esse tipo de coisa calada, se sentir culpada, porque não somos nós as culpadas, quem sofre é a vítima".

De acordo com Panorama da Violência contra as Mulheres no Brasil, revela que 4.832 mulheres foram assassinadas em 2014, somente no estado de São Paulo foram cerca de 613 homicídios, sendo o estado com maior número de casos, com maior parte das vítimas sendo pretas e pardas, já que, para cada 100 mil mulheres no país, 4,6% eram pretas ou pardas.

Os estados do Amapá, Pará, Roraima, Pernambuco, Piauí e Espírito Santo, apresentaram taxa de homicídio de mulheres pretas e pardas mais de três vezes superior à de mulheres brancas. Além disso, o panorama mostrou que, de 2006 a 2014, a taxa de homicídios das mulheres supracitadas aumentou em média 20% e entre mulheres brancas esse dado é de uma redução de 3%.

*Utilizamos nomes fictícios para preservar a identidade das mulheres.

   

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