Fique por Dentro

“(...) os Sindicatos constroem a classe média”

Médico sanitarista e consultor da Fundação 1º de Maio, Diógenes Sandim
Publicado em: 07/maio/21   |   Autor: Diógenes Sandim

Nos últimos anos, sofremos uma avalanche de artigos, livros e falas tentando propagar a tendência da extinção dos sindicatos no mundo. As razões foram diversas, mas todas fundamentadas nas transformações do modelo tradicional de produção, onde as máquinas foram ganhando mais autonomia, precisando de menos mão de obra na linha produtiva. Estas afirmações foram, aparentemente, ganhando mais consistências na medida do aparecimento das tecnologias emergentes tais como as indústrias 4.0 e hoje, as já chamadas 5.0, como no caso as máquinas de Inteligência Artificial (IA).

Nós sabemos que, historicamente, todas às vezes que passamos de um estágio produtivo a outro, por meio de evoluções tecnológicas, acompanhamos adaptações na força de trabalho assalariada. Tais transformações, nas últimas décadas do século passado, se deram com protagonismo da organização dos trabalhadores por meio dos seus respectivos sindicatos. 

Os sindicatos nunca foram entidades políticas ideológicas de oposição ao modelo capitalismo de produção, mas expressões dos direitos do cidadão-trabalhador em um Estado democrático republicano. As contradições inerentes às relações ‘capital e trabalho’ se buscam resolver num campo democrático de liberdade e autonomia, em uma mesa de negociação, entre trabalhadores e patrões, através de seus respectivos sindicatos. Portanto, os sindicatos representaram durante toda a sua história um elemento complementar e concorrente dentro do sistema capitalista, sem colocar em questão o modelo capitalista de produção, mas, sim, como ferramenta de controle da ganância unilateral do lucro, por meio da exploração da “mais valia” do trabalho.

A hegemonia do modelo capitalista de produção sob o ponto de vista cultural é resultado de muitas variáveis, mas dentre elas conflui o papel do sindicato como legitimador do direito do trabalhador no desenvolvimento do liberalismo econômico no Estado democrático republicano. Digo mais, uma peça, dentro dessa máquina antropossocial, que promoveu o próprio desenvolvimento do capitalismo moderno.  

Não temos dúvidas que o Estado Democrático Republicano, com ênfase no modelo do liberalismo econômico, sofreu influência também da “guerra fria,” a partir das ações políticas, internas em cada nação, dos partidos chamados de esquerda que, em oposição ao modelo liberal da economia, propagandeou o modelo socialista dos meios de produção como um modelo mais justo e civilizatório.

Para responder a estas investidas políticas, as elites muitas vezes buscaram fazer frente com segmentos conservadores de extremo, para impor ditaduras ou governos de inspirações autocráticas às nações “pré disponíveis”, como se deu em países da América do Sul, inclusive no Brasil com a ditadura cívico militar de 1964. 

Mas como devemos interpretar de forma, até com certa surpresa, o primeiro discurso de Joe Biden, presidente dos EUA, no Congresso americano? Nesse discurso, Joe Biden enfatiza o papel dos sindicatos no desenvolvimento do Estado Americano como nação soberana desenvolvida e rica. O presidente democrata chegou a incluir os sindicatos no que chamou de “espinha dorsal” de seu país.

O que nos parece que é chegada a hora de enfrentar o negacionismo do papel construtivo das organizações dos trabalhadores, no contexto do Estado Democrático, feitas pelos “intelectuais orgânicos” do chamado neoliberalismo. 

Logo após a queda do socialismo real, no contexto da guerra fria, o discurso do liberalismo econômico sentiu-se à vontade para desconstruir as ações concorrentes, internas ao modelo liberal econômico, com sua narrativa ortodoxa conservadora, que foi o caso do Estado de Bem-Estar Social que, segundo os novos conceitos do neoliberalismo contemporâneo, os custos estaria levando  a desfiguração do mercado, que deveria ser  livre, autônomo e independente do estado – que por sua vez hipertrofiava, como um “Leviatã” voraz. Coincidindo com a evolução das novas tecnologias remanescentes, o segmento patronal no mundo adotou uma base ideológica (neoliberalismo), para defender uma nova organização nas relações do trabalho, que de forma unilateral prescindia dos sindicatos.

O que se viu durante esses anos todos – mais de 30 anos – foi uma excrescência no aumento da pobreza no mundo, concentração de renda nas mãos de poucos trilionários que, frente a cada crise econômica, tem aumentado e auferido mais lucros e riqueza, enquanto o mundo clama pela diminuição da pobreza, maior distribuição de renda e racionalidade para com o equilíbrio ecológico do planeta. 

O capitalismo vive atualmente uma crise estrutural, não é como em todas as crises conjunturais anteriores que, com apenas algumas reconfigurações nacionais ou internacionais, reagrupavam seus interesses num maior equilíbrio entre demanda e produção.

O que vemos agora é a necessidade de um salto qualitativo, de um Estado de Bem-estar Social que deveria ter evoluído para um Estado Solidário, mas que ainda patina como “estado rococó”, desfocado da essência, permanecendo nos detalhes que nos cega para o principal.

Joe Biden, presidente dos EUA – a principal potência do mundo, que em 1º de maio de 1886, em Chicago, se viu envolvida em um cenário de violência com os trabalhadores de seu país – veio servir de exemplo de luta para todos os trabalhadores do mundo. Ele inicia agora uma nova narrativa “...os sindicatos constroem a classe média”, simbolizada pelo emblemático busto do sindicalista César Chávez (19927-1993) um filho de imigrantes mexicanos, para a nova decoração do salão oval.

Nesse momento, o sindicalismo de todo o mundo e em especial a Organização Internacional do Trabalho (OIT), devem sentir-se fortalecidos para discutir as alternativas de melhores condições de vida para todos os seres humanos do planeta, deste planeta que corre riscos ecológicos pela ganância expressa nas linhas básicas do neoliberalismo contemporâneo, que frente ao momento histórico para novos rumos, resiste à transformação daquele que é “velho,” e não quer morrer.    


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