Fique por Dentro

Negacionismo da vacina no século XXI

Médico sanitarista e consultor da Fundação 1º de Maio, Diógenes Sandim Martins
Publicado em: 09/dezembro/20   |   Autor: Diógenes Sandim Martins

Qual a semelhança entre A REVOLTA DA VACINA no Rio de Janeiro em 1904 e o negacionismo com relação a pandemia do COVID-19 em 2020, exatamente 116 anos depois?

 A Revolta da Vacina, em 1904, ocorreu em um momento histórico que a ciência médica e terapêutica engatinhava e dava seus primeiros passos certeiros em busca das causas das doenças, que à época imaginavam ser de origem “miasmáticas”.

No Brasil, com a recente proclamação da República, se via com frequência a resistência da oposição conservadora pró-monárquica, na tentativa do retorno do “ancien régime”. Com relação à vacina contra a varíola, a população predominantemente analfabeta, foi facilmente manipulada politicamente pela oposição à República e ao Presidente Rodrigues Alves, homem de origem Positivista, Escola ideológica de boa parte dos líderes da recém proclamada República no Brasil.  

Não fosse naquela época a determinação do Presidente Rodrigues Alves em enfrentar a explosão das manifestações populares e as acertadas medidas de higiene tomadas por um médico recém formado, que depois se tornou reconhecido como iminente sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, e as mudanças modernas de reformas na urbanização do Rio de Janeiro, acompanhada também pela obrigatoriedade da vacina, seria bem provável que a recém proclamada República teria ali, sucumbido.

No campo da política, aquele evento histórico sofreu embates com forças conservadoras que oportunisticamente manipulavam o povo que resistia à obrigatoriedade da vacina muito mais por se sentirem invadidos e desrespeitados com a truculência em seus direitos de moradia que, naquela época estavam, concomitante sendo expulsos de onde moravam e mandados para as encostas dos morros, promovendo espaços de segregação social no novo e moderno traçado urbano. Sentiam o peso da modernidade excludente para os mais pobres, os negros e   seus descendentes. A oposição não estava interessada nessas questões de ordem social, no entanto, insuflava as massas para buscar espaços políticos para o retorno à Monarquia.

Fazendo um paralelo para os dias de hoje, só podemos ver semelhanças com sinal invertido. Quem nega as vacinas para a pandemia do covid-19 é justamente o atual Presidente da República, Sr. Jair Bolsonaro, que em uma atitude negacionista tenta desacreditar a Ciência. Não estamos nas fronteiras do período pré-industrial ou nos primórdios das primeiras descobertas cientificas. Não!!! Estamos no segundo decanato do século XXl, quase vinte anos depois do “2001: Uma Odisseia no Espaço”, cinquenta e um anos após o Homem ter ido à Lua. Hoje a ciência tem tudo isso consolidado e, ainda assim, há um movimento de negacionismo e revisionismo da história.

O que significa isso então?

O que nos parece, estamos enfrentando em vários lugares do mundo, um negacionismo do Iluminismo, ou seja, da razão, da ciência, do humanismo e do progresso social. Sob o ponto de vista da política em nosso país, um presidente quer se ver como liderança de uma parcela pequena e reacionária da população, segmento este que sempre se manifestou radicalmente contra o processo civilizatório, sempre estiveram alinhados às conclusões conspirativas da história e que não suportam a igualdade de oportunidades entre os homens do planeta.

Ora, se a ciência é a linha que alinhava e costura todo o processo civilizatório e se, cada vez mais tem demonstrado por meio de seus estudos, pesquisas e conclusões que somos todos, Homo sapiens, semelhantes entre si e que nada nos faz diferentes a não ser as oportunidades, que o planeta é um “ser vivo” que depende de nós para não soçobrar e que as questões de gênero, cor e orientação sexual são condições identitárias a serem respeitadas na construção de um mundo melhor e mais justo.   - Ah!!! então é essa a “vilã,” que tem que ser desrespeitada, mutilada e execrada.

Diz o Néscio, não há ciência! E como louco sai contra tudo e contra todos. Reconhece que estamos no limiar de um novo ciclo civilizatório e que para ele não haverá lugar, e como o Monge do livro de Humberto Eco “O nome da Rosa,” fará de tudo para impedir o salto qualitativo que a ciência já proporcionou e ainda está proporcionando para a humanidade. E destrambelhado, com sua metralhadora giratória, fala aos seus:

 “... e se for necessário morrer 30.000 pessoas, que importa?...” (sic)

“...Quero aqui homenagear esse grande brasileiro, um herói nacional, Coronel Carlos Brilhante Ustra” (sic)

“...eu só não a estrupo, porque você não vale a pena...” (sic)

“...isso não passa de uma gripezinha...”(sic)

“.. Qual o problema? Um dia vai ter que morrer mesmo!!!” (sic)

“...Brasil acima de todos e Deus acima de tudo” (sic).

Comecei a escrever este artigo com a intenção de fazer algum paralelo entre o que ocorreu no Rio de Janeiro em 1904, com o neonegacionismo nos dias de hoje, mas finalizo concordando que não existe paralelo com a Revolta da Vacina, o que estamos vendo aqui, entre nós e em boa parte do mundo, faz paralelo sim, mas com um período de muito mais trevas na história da humanidade, que culminou com o genocídio de 6 milhões de judeus, milhares de ciganos, homossexuais e homens da ciência.

Para esses neonegacionistas de todo mundo, só temos uma certeza:

NÃO PASSARÃO!


2020 Fundação 1º de Maio. © Todos os direitos reservados.