Fique por Dentro

Espaços de resistência são trincheiras para reivindicações do coletivo negro

Mulher negra fazendo uma apresentação artística
Publicado em: 31/julho/19   |   Autor: Guilherme M. Martinelli - Diretor Executivo da Fundação 1º de Maio

Opinião

Ser negro no Brasil é ter menos oportunidades. Os dados evidenciam os fatos: 

+ Em 2010, 62% da população branca com mais de 18 anos possuía o ensino fundamental completo, na população negra, esse percentual caía para 47%;

 +  O número de desempregados em 2017 já era de 13 milhões sendo que, desse total, 64% são negros;

+ Em 2010, 62% da população branca com mais de 18 anos possuía o ensino fundamental completo. Na população negra, esse percentual caía para 47%.

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD)

Ser mulher negra é enfrentar ainda mais dificuldades, segundo o dossiê da Agência Patrícia Galvão, elas são as que mais sofrem violência doméstica e obstétrica, tem a maior taxa de mortalidade materna e tem duas vezes mais chances de serem assassinadas do que mulheres brancas. Vou repetir: duas vezes mais chance de serem assassinadas do que mulheres brancas.

Diante desse cenário que, convenhamos, não apareceu ontem, foi mandatório que a população negra se organizasse por meio de espaços de resistência. Desde os quilombos, foi preciso pensar novas maneiras de atuar não só para reverter o triste desenho social que se encontram, mas também para sobreviver. O espaço de resistência nem sempre é um lugar físico, mas é muitas vezes uma ideia ou um processo de aproximação, de acolhimento, onde pessoas negras podem – entre iguais – discutir, partilhar e promover suas próprias experiências.

Bruna Cristina Pereira, de 35 anos, é uma mulher negra, doutora em sociologia pela Universidade Federal de Brasília (UNB), e, em 2014, foi uma das responsáveis pela criação do Grupo de Estudos de Mulheres Negras da UNB (Universidade Federal de Brasília). A ideia inicial era ter um espaço de auto formação para mulheres negras

“Na Academia, infelizmente, existem poucas professoras negras e também são raras as discussões de autoras negras ou de textos feministas negros. Queríamos um espaço horizontal onde fosse possível pensar e produzir conhecimento”

O grupo realiza reuniões quinzenais – para debater obras de autores negros e os seus próprios trabalhos. Lá também já foram realizados lançamentos de livros e uma oficina de escrita, essa última na intensão de oferecer um “feedback qualificado” para as estudantes, que mesmo no ambiente acadêmico são, muitas vezes, marginalizadas. O grupo de Brasília é aberto – para qualquer mulher negra que esteja interessada em promover um troca intelectual focado no trabalho de mulheres negras, embora o maior número de participantes seja de alunas da pós-graduação.

Fora do espaço acadêmico, também se multiplicam os espaços de resistência. Em São Paulo, desde 2016, o Aparelha Luzia, coordenado pela deputada estadual Érica Malunguinho (PSOL), se apresenta como um centro cultural, bar e espaço de “associação-preta-política-artística-gentista-destruidora-das-razões-dominantes”, segundo declaração da deputada ao jornalista Miguel Arcanjo.

Localizado no bairro da Barra Funda, no centro de SP (São Paulo), além de manifestações culturais e festas, o espaço promove debates, encontros e cursos – tudo direcionado para que pessoas negras possam “organizar sua coletividade”, afirma sua fundadora. 

Também em São Paulo, o grupo Ilu Obá de Min reúne mulheres, há mais de 12 anos, levando cultura de matriz africana e afro-brasileira. O nome, vem do Yorubá e significa: mãos femininas que tocam tambor para Xangô.

Das diversas iniciativas do grupo, talvez a mais conhecida seja o Bloco Afro Ilú Oba De Min, que, desde 2005, sai às ruas de São Paulo reverenciando e enaltecendo a cultura afro-brasileira além de destacar a participação e protagonismo das mulheres no mundo.

Apesar dos diferentes conceitos em que esses três espaços se enquadram, todos eles se orientam a partir de uma mesma proposta: possibilitar a organização e atuação das pessoas negras, em especial das mulheres.

“Nós [mulheres negras] muitas vezes ficamos muito isoladas, na Academia, por exemplo, muita gente nem se conhece. Em primeiro lugar, participar de um espaço como esse é saber que não estamos sozinhas. Assim podemos enxergar que, muitas vezes, as situações que temos que lidar por sermos negras não são culpa nossa, mas padrões de comportamento da sociedade e, a partir daí, podemos enxergar isso como um problema, e discutir estratégias, de como lidar com essas questões”, afirma a criadora do Grupo de Estudos de Mulheres Negras da UNB (Universidade Federal de Brasília), Bruna Cristina, “o espaço é fundamental para construir experiências coletivas de resistência”.

Em tempos onde o radicalismo não é mais exceção, e sim infeliz cotidiano, é provável e importante ver espaços de resistência como esses se multiplicarem. A crise de representação e o perigo real que uma sociedade de extremos oferece obrigam a população que mais sofre, nesse caso, mulheres negras, a discutirem e, de maneira horizontal – estimular o protagonismo de suas bandeiras e reivindicação de direitos.

Hoje se encerra o mês da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, mas a luta delas ainda está longe do fim.

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