Fique por Dentro

Cultura das mulheres negras vira produto e desvaloriza identidade ancestral

Imagem com mulheres negras de turbante
Publicado em: 18/julho/19   |   Autor: Laura Luz

Apropriação cultural negra, segundo líderes do movimento ativista, é o uso de elementos, símbolos ou manifestações culturais de identidade africana por pessoas de outras etnias. O tema discutido constantemente na internet virou pauta dos coletivos negros para compreender o que pode ou não ser considerado apropriação cultural.

Para não polarizar a discussão, o consenso de ativistas é a consciência pessoal para valorizar a cultura, retirando pessoas brancas do centro da discussão e dando visibilidade para pessoas negras. Buscando esse protagonismo, militantes se organizam em coletivos para discutir pautas do movimento negro. Um desses coletivos é o Pretas Potências, de Franco da Rocha (SP), que acolhe, incentiva e promove a cultura para outras mulheres negras através de rodas de conversa, saraus e atividades sociais com a comunidade.

Os adereços da cultura africana sempre estiveram ligados diretamente ao sagrado e as divindades. A amarração dos turbantes, os tecidos estampados, os tipos de tranças, traduzem a identidade dos indivíduos, ou seja, o local de onde a pessoa vem, suas crenças e sua história, sendo símbolos de resistência e fé. Com a miscigenação, parte desses valores foram enfraquecidos e marginalizados. Em contrapartida, pessoas brancas passaram a usar esses adereços como tendências de moda. Ou seja, o mesmo adereço passa a ter significados diferentes dependendo da cor da pele de quem usa. “O turbante vem reafirmar uma série de estigmas muito fortes. [...] Uma trança na cabeça das pessoas brancas tem um significado. Na cabeça de uma pessoa negra será marginalizada”, explica a assistente social e fundadora do coletivo Pretas Potências, Pamela Gabrielle (31). Incorporar características de um povo que não lhe pertence, para os ativistas, é uma apropriação de valores e cultura.

Por que a indústria da moda lucra com a cultura negra, usando pessoas brancas como modelos e desconsiderando a importância dos símbolos ancestrais?

Para Pamela, a questão não é apenas o indivíduo utilizar os adereços, mas a comercialização e a intenção pessoal, conhecimento e respeito com o sagrado: “Eu acho que a questão é a forma como o capitalismo se apropria desses itens e vai embranquecendo isso. [...] É importante a gente entender que essas coisas têm suas matrizes históricas, elas têm um campo que precisa ser cultuado, memorado. É importante levar adiante, mas de forma respeitosa, não na base do lucro ou da apropriação. As coisas têm um significado. Esses acessórios têm referência muito importante no sagrado”.

A desvalorização da cultura afasta o povo negro das suas próprias raízes. Infelizmente, as mulheres negras encontram dificuldades de se reconhecerem dentro do movimento e de usarem os adereços que pertencem à sua própria identidade.

Embora na mídia a discussão seja em torno dos indivíduos, para as mulheres do Pretas Potências se estende de forma sistêmica, que ressalta o papel do capitalismo na comercialização da cultura, sem valorização do povo a que ela pertence, e que se estende além da indústria. “Apropriação cultural é quando a Vogue pega mulheres brancas, coloca turbante e vende aquele produto como se fosse da identidade daquelas mulheres. [...] Grupos colocam projetos nos editais para falar da cultura negra, mas a maioria são brancos ganhando dinheiro com isso. Eles estão usando o local de fala que não é deles. Não querem inserir pessoas negras. É valorizado o produto cultural e não a cultura em si”, explica a produtora cultural e cofundadora do coletivo Pretas Potências, Ana Moraes (33).

A forma como os costumes sagrados da cultura negra são tratados, também traz à tona a discussão estrutural da apropriação, colocando em pauta o embranquecimento da cultura e a demonização dos símbolos negros. “A cultura do negro foi demonizada. [...] Os negros, quando foram trazidos da África, foram proibidos de manifestar sua cultura. Seja ela a questão religiosa, as danças, as roupas. Eles tiveram que se adequar ao padrão eurocêntrico, foram silenciados. Como os negros foram proibidos de exercer a sua cultura, o que acontece hoje é que muitos não se manifestam culturalmente. Atualmente, os negros negam sua matriz religiosa, a cultura. Isso é causa de um processo histórico de silenciamento e apagamento”, diz Ana.

No dia 25 de julho se comemora o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, mais uma data para relembrar a luta das mulheres negras por igualdade, representatividade e respeito às suas raízes. Em um mês tão importante, é necessário colocar em evidência a realidade dessas mulheres que carregam até os dias de hoje as mazelas do sofrimento, discriminação, anulação e silenciamento. A essência sagrada da cultura do povo negro precisa ser protegida e reconhecida. Enquanto a sociedade branca encara a cultura negra como objeto de consumo, há mulheres negras lutando diariamente para manter suas raízes e para que sua ancestralidade continue resistindo e seja respeitada.

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