Fique por Dentro

O trabalho no mundo contemporâneo

Uma pessoa usando um computador
Publicado em: 03/maio/19   |   Autor: Diógenes Sandim

Neste mês de maio de 2019, quando o mundo todo comemorou o dia do trabalhador explicitando, nos países democráticos, as contradições ainda existentes entre o homem e a   sua produção nas relações do trabalho, é oportuno refletirmos sobre as transformações que ocorreram e ainda ocorrem no curso dessas relações no mundo contemporâneo.   

As configurações que o trabalho ganha no decorrer da historiografia moderna é o resultado de uma relação sociopolítica entre o homem e a sua produção. O trabalho tem o poder de moldar a compreensão do homem como ser social. Portanto, as transformações em sua configuração modificam a socialização do homem e o seu modo de ser e estar no contexto social a que pertence. A fim de produzir os meios para a sobrevivência, o homem, por meio de seu trabalho vai tecendo modalidades de relação social historicamente construídas. A produção, na medida que o trabalhador interage com ela, durante o processo de sua concretização, tem um valor que suplanta o meramente monetário e imprime um modo de viver e agir, uma identidade subjetiva de valor moral e de status social.

Mudanças na forma de organização do trabalho modificam a maneira de como o homem se socializa e altera os seus modos de ser, o que torna essencial analisar como essas transformações repercutem nos processos de subjetivação do homem e que continuam atravessando a dimensão do trabalho nos dias de hoje.

A Revolução Industrial pautou sua história a partir da adoção dos princípios científicos de organização, e a gestão do trabalho foi o foco do Fordismo e Taylorismo que, no decorrer de sua implantação e consolidação no mundo do trabalho, foi ficando evidente os prejuízos à saúde do trabalhador tendo em vista que se buscava aumentar a produção e consequentemente, os lucros, por meio da exploração irrestrita da mão de obra.  

” ...a disciplina marcava significativamente esse modelo produtivo, segundo os quais os trabalhadores que fugissem às prescrições de seu trabalho eram considerados indesejáveis e transgressores”.  (Revista Labor número 11, v.1, 2014)

Segundo NARDI (2006) esse modelo produtivo promoveu uma cultura de organização coletiva de resistência, viabilizando as lutas das massas de trabalhadores, a organização dos sindicatos e a conquista de uma série de direitos trabalhistas. As organizações dos trabalhadores e de seus aliados no âmbito da organização parlamentar do Estado asseguraram, por meio da legislação, tais conquistas. Isso tudo remeteu a constituição da noção de Emprego.

Em meados do século XX, o emprego ganhou relevância significativa na subjetivação do trabalhador. Era apenas, a partir da inserção do sujeito no mundo do trabalho, por meio do emprego que que se admitia o seu valor social e moral (NARDI;2006). Nessa época, se lutava por estabilidade duradoura no emprego, pois isso permitia uma possível construção de projeto de vida a longo prazo.

“Nos últimos 30 anos, mais precisamente a partir da emergência do neoliberalismo e capitalismo financeiro, que implicam uma redução da intervenção do Estado na organização trabalhista, provoca uma ruptura no modo como o trabalho vinha produzindo os processos de identidade. Desta forma ocorreram uma série de mudanças na população dos trabalhadores que precisou se reajustar aos novos modelos produtivos, como o Toyotismo, os quais se caracterizam por: novas formas de gestão, tanto de produção como de pessoas; transnacionalização do capital; migração laboral orientada pela dinâmica do capital internacional; intensificação nos ritmos e processos de trabalho; incorporação da informática, telecomunicação e microtecnologia; busca pelo máximo de produtividade com o mínimo de tempo e pessoal ; redução do trabalho estável e contratual e aumento do informal, temporário/parcial; terceirização; predominância do auto emprego de subsistência; flexibilização do trabalho; desconcentração do espaço físico e da jornada de trabalho; apropriação de características  cognitivas do trabalhador pelo maquinário; exigência alta qualificação do trabalhador para fazer frente à tecnologia (superespecialização)”. (Antunes,2006; Coutinho et. Al.,2007; Dejours,2004; Nardi,2006; Sainz,2003) e (Revista Labor número 11, v. 1, 2014) 

“Passamos como afirma Beck (1999) de um modelo social de trabalho onde imperava maior segurança ao modelo de risco desregulado “(AQUINO, 2005, p.7) 

 “A década de 1970 marca o início da crise do capital, denominada por Mészáros (2007) de crise estrutural. As crises são inerentes ao capitalismo, elas são expressões das contradições internas à forma que o próprio sistema se organiza para produzir e manter-se em expansão” (Cadernos de Graduação- Ciências Humanas e Sociais Fits v.1 n.2 p. 47-59).

Nesse modelo de produção capitalista a categoria que exclusivamente é produtora de riquezas - o trabalho - é colocada numa situação de subordinação e controle. Impedindo que os produtores se realizem na produção e tenham acesso a ela. Como sempre se produz mais do que se recebe, logicamente sempre haverá mercadoria sobrantes. Sendo assim o conjunto dos trabalhadores não poderão consumir todas as mercadorias disponíveis no mercado, e por essa razão e outras concomitantes, essa contradição inerente ao capitalismo promove crises cíclicas periodicamente, crise de superprodução.

No caso da crise iniciada na década de 1970, ela não é mais cíclica como frequentemente ocorria, essa crise vem se mostrando estrutural. Além disso, ela não atinge um setor ou um país, mas vem se fazendo global e afeta toda a estrutura do sistema do capital.

Para manter-se o capitalismo busca superar seus próprios limites estruturais e é nesta encruzilhada histórica, que devemos focar nossa atenção em busca de alternativas, consensuais, estruturantes para superação da indignidade endógena, do capitalismo moderno, para o trabalho humano. 

Com a crise de 1970 o sistema capitalista inicia uma intensa reorganização do seu processo de reprodução e  acumulação que dá curso ao que se denominou de “Restruturação Produtiva” envolvendo não só referentes ao âmbito da produção, mas também ligados às relações de trabalho, às funções do Estado (que são reconfiguradas) e ao modo de ser da classe trabalhadora. 

Segundo Antunes (2009) as primeiras expressões dessa crise foram: a queda na taxa de lucro, a retração do consumo e o declínio do taylorismo- fordismo, a ampliação do setor financeiro em relação ao produtivo, a crise do Welfare states e a flexibilização do processo produtivo e das relações de trabalho. Consideramos que a substituição do fordismo pelo toyotismo foi o que mais impactou o mundo da produção a partir de estratégias que caracterizam um período no qual a acumulação é dirigida por processos de flexibilização.

O toyotismo estabeleceu um padrão de acumulação caracterizado pela flexibilidade, tanto no processo produtivo quanto nas relações trabalhistas, alterando as formas de execução das tarefas e inserindo novas modalidades de contrato, vínculos empregatícios e de ocupação, com a necessária regressão dos direitos sociais, em especial os que referem ao âmbito trabalhista. Essa regressão é permitida e legitimada pelo Estado, agora reorientado pelo neoliberalismo. 

Frente a essa situação em que o capitalismo busca superar seus próprios limites à custa de mais exploração do trabalho humano e do enfraquecimento das organizações sociais promovendo cada vez mais miséria e concentração da renda, é necessário buscar, no imbróglio do processo de rupturas, as aspirações legitimas da superação do inumano em busca de  um salto qualitativo de desenvolvimento civilizatório da humanidade.

A fórmula: economia liberal + mercado globalizado e competitivo+ avanço tecnológico + velocidade na transmissão e comercialização de tecnologia traz obrigatoriamente como resultado a necessidade das organizações se apoiar nas pessoas como solução para obter um diferencial de competitividade. Tal prática está articulada à necessidade de democratizar as informações. O segredo deixou de ser a alma do negócio. Para que as pessoas estejam comprometidas com a nova cultura organizacional é necessário, em primeiro lugar, que elas a conheçam e adquiram dela uma visão mais sistêmica.  

Podemos definir cultura organizacional, de acordo com Alvim (2000, p.39) como:

“Um conjunto de modos de pensar, sentir e agir - originado a partir de uma aprendizagem coletiva – o qual tem uma função integradora, que envolve subjetividade e diferenças, formando um todo complexo e multidimensional composto por elementos que estão em relação dialética constante e que tem um sentido de identidade sustentado por elementos universais.”

Tal definição aponta algumas questões estratégicas para nossas reflexões. Se o segredo deixou de ser um bom negócio e a participação do trabalhador numa aprendizagem coletiva torna-se necessária para garantir qualidade e produtividade, seja em qualquer nível da produção, encontra-se aí  condições de colocar o homem na busca de seu sentido de identidade perdida no modelo fordista e taylorista de produção e execrar as idiossincrasias do capital predatório ainda presente no modo do toyotismo, que percorreu todas últimas décadas da produção na história moderna. 

 Se usarmos o conceito de  Materialismo Histórico como responsável por  tudo na vida concreta em sociedade e que, as necessidades  dessa sociedade se faz no espaço e tempo  da sua realidade, de suas adições e  contradições  que se faz na sua  matriz  de   transformação, é de se pensar, que no bojo do velho a ser superado, tem a genealogia do novo a ser implantado e, será pelo olhar “clinico” dos novos agentes  da transformação, que podemos encontrar o  rebento a ser parido.

Assim, como ocorreu a superação do feudalismo pelo capitalismo com a emergência da classe burguesa, e isto representou um avanço histórico civilizatório para humanidade, está chegando a hora de um novo salto histórico para nosso mundo, a partir dos fatos emergentes promovidos pelas  contradições que, em busca de soluções, tem promovido saídas que permitem a oportunidade de  costurarmos uma saída  definitiva para nossas mazelas, que durou todo o tempo no mundo moderno.   

O século XXl será o século de consolidar a pós modernidade, que teve seu início já na segunda metade do século passado. Se o século XX se caracterizou pelo confronto de ideias e ideologias Leste x Oeste, num permanente confronto Trabalho, Capital e no meio dos dois, o Estado, o século XXl deverá nos fornecer alternativas sustentáveis para sobrevivência da humanidade no planeta, condição esta que deverá  permitir alcançar a superação do mal-estar da civilização que se mantem durante toda a passagem da era moderna e  que continua no que podemos chamar de  hipermoderna.

 Em uma nova cultura voltada para a capacidade  de transformar o mundo a partir de uma unidade organizacional que tem na parceria capital e trabalho um compromisso em favor de um bem comum  “... formando um todo complexo e multidimensional, composto por elementos que estão em relação dialética constante e que tem um sentido de identidade sustentado por elementos universais” (Alvin 2000,p. 39). 

Com essas afirmações é possível construir junto ao trabalho consciente uma remuneração do capital, que seja justa e compartilhada com condições dignas do trabalho humano e significativa remuneração da mais valia, produzida pelo trabalho. Com uma nova cultura organizacional produzida e reproduzida pelo pensamento sistêmico, o cantado e decantado humanismo que é referência desde o iluminismo, ganha agora uma práxis contemporânea sustentável, que podemos denominar de HUMANISMO SISTÊMICO. A pós modernidade pode ser a era do pós capitalismo predatório, e motor de uma nova cultura mundial com reflexos sistêmicos em busca de soluções das outras mazelas endógenas da forma atravessada de vermos e lidarmos com nossa realidade contemporânea.   


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