Fique por Dentro

Brasil enfrenta problemas para vacinar suas crianças

Na foto, no centro, uma mão com unhas pintadas em vermelho e segurando uma ampola de vacina de poliomelite.
Publicado em: 21/setembro/18   |   Autor: Artur Souza Costa

Os programas de vacinação no Brasil sempre foram referência no mundo, no entanto, nos últimos anos, houve uma queda nas taxas de imunizações de algumas vacinas. Em 2017, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) apontou que, pela primeira vez, todas as vacinas recomendadas para crianças menores de um ano ficaram abaixo da meta. Outro dado importante é sobre a vacina de HPV, apenas 63,4% das meninas do público-alvo tomaram a primeira dose, enquanto, 35,7% dos meninos do público-alvo receberam a imunização. Ao mesmo tempo, cresce o movimento de pessoas que se opõe a elas, o que pode ser um dos indícios da diminuição da cobertura vacinal no país, outra questão a ser levantada é a efetividade do alcance das campanhas de imunização.

Movimento antivacina

O movimento contra a vacinação começou em 1982, com o lançamento do documentário norte americano, chamado “DPT: Vaccine Roulette”. Esse filme fez uma associação entre a vacina tríplice bacteriana com possíveis danos cerebrais, com isso, cresceu o temor em relação às imunizações. Em 1998, um ex-pesquisador e ex-médico britânico, Andrew Wakefield publicou um artigo na prestigiada revista científica The Lancet, no qual estabelecia uma relação entre a vacina tríplice viral, que protege a criança contra caxumba, sarampo e rubéola, com o autismo. Segundo Wakefield, a vacina causava inflamação no intestino, que por sua vez, produzia uma toxina que era levada ao cérebro, dessa forma, provocando o autismo.

Após investigações, foi comprovado que o estudo de Wakefield era fraudulento, além disso, ele tinha feito um pedido para patentear uma vacina contra o sarampo, que concorreria com a vacina tríplice viral, dessa forma, havia um importante conflito de interesses. Em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido julgou Wakefield inapto para o exercício da profissão e a revista Lancet publicou uma retratação sobre o falso artigo.

No entanto, o movimento antivacina vem ganhando força por meio das redes sociais. Pessoas que não acreditam na eficiência das vacinas ou que acreditam que elas causam malefícios ao corpo humano, além de pessoas que preferem tratamentos médicos alternativos se unem em dezenas de grupos no Facebook para trocar informações, os principais são: “O lado obscuro das vacinas” (o maior deles, possui 14.409 membros), “Vacinas: o maior crime da história”, “Sou contra a vacina HPV”. Eles postam artigos científicos (a maioria em inglês), vídeos, histórias que julgam comprovarem que as imunizações não são benéficas ou que, até mesmo, seja uma forma de controle do Estado para com a população.

Fernanda* é fisioterapeuta e participante de um grupo que se opõe às vacinas, ela diz que é a favor da escolha soberana em relação a vacinação. Para ela, não há um movimento antivacina no mundo e diz: “Não existe um movimento antivacina, existem várias pessoas em diferentes partes do mundo que sofreram lesões e sequelas por lesões causadas por vacinas e decidiram estudar e falar sobre esse tema mais abertamente”. Ela afirma que há base científica para deixar de se imunizar: “existem bases de dados acadêmicos e científicos, que servem de estudo para os interessados no assunto. Estou falando de fontes acadêmicas de grandes universidades e instituições governamentais como o CDC, Pubmed ou outros jornais científicos que contém centenas de estudos de laboratório ou de campo, que servem de norte para os interessados no assunto”. Fernanda reafirmou que: “as vacinas não funcionam positivamente, trazem inúmeros malefícios ao corpo humano e dos animais. Influenciando negativamente nosso corpo e nosso ecossistema”. 

Mercúrio nas vacinas

Um dos argumentos usados pelo movimento antivacina para criticar as imunizações é que há mercúrio na composição das vacinas e a substância pode ser danosa ao corpo humano. O médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, Jean Gorinchteyn esclarece: “na verdade, as vacinas tinham um componente de mercúrio e tinham um outro componente que era o timerosol, que se atribuía isso, inclusive, ao risco de as crianças terem autismo. Isso veio de um médico da Grã-Bretanha que colocou isso e foi provado que primeiro, a dose é muito baixa, segundo, não existia nenhuma associação entre vacinação e autismo. Considerando que isso era uma pura inverdade, já se provou que não há risco algum dessas vacinas”.

Falta de conhecimento

Por outro lado, há quem trabalhe para a conscientização da importância da vacinação. As vacinas e os antibióticos são os principais responsáveis pela longevidade da vida humana. Antigamente, havia muitas mortes de pessoas por gripe, sarampo ou tuberculose, hoje, as taxas de mortalidade são pequenas. Para se ter ideia, em 2000, a Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou que o sarampo no Brasil estava erradicado, no entanto, em 2016 surgiram casos da doença, porque segundo o infectologista: “as coberturas vacinais de vários outros países estão diminuindo e faz com que pouca gente esteja imunizada, com isso, aumenta a circulação de vírus”. Ele cita a situação dos refugiados venezuelanos como um exemplo de como é importante manter as pessoas imunizadas e protegidas. No estado do Amazonas e Roraima, que são próximos da fronteira com a Venezuela, houve um surto de sarampo, a disseminação do vírus chegou a São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

O especialista acredita que há uma falta de informação na sociedade em relação aos efeitos das vacinas e explica como essa desinformação pode se espalhar: “Pessoas começam a dizer que as vacinas fazem mal, que viu um estudo de um médico americano contraindicando vacinas, dessa forma, elas começam a dar seus pareceres. Isso ganha força, porque muitas vezes quem fez essa colocação é aquela prima que trabalha no hospital, é aquele rapaz que estuda numa faculdade bem informada e ele é o exemplo, é o líder de opinião daquela família.”

O infectologista dá um exemplo de um caso em que a vacina pode causar problemas graves ou até mesmo a morte: “Há a possibilidade de quando se trata de vacinas formadas por vírus vivos atenuados, em que pessoas, eventualmente, tenham uma contraindicação de tomar vacina, recebem e acabam morrendo por complicações da vacina”. Entretanto, segundo Jean, a possiblidade de uma morte acontecer é pequena, a cada 400 mil doses de vacinas aplicadas, uma pessoa morre. Ele afirma que muitas pessoas se prendem a um caso único para generalizar as imunizações como algo maléfico a saúde.

As disseminações dessas informações sem base científica podem preencher uma lacuna que pertencia as campanhas de vacinação. A última foi contra o sarampo e a poliomielite, o orçamento disponibilizado, pelo Ministério da Saúde, para atingir a população foi de R$ 20,8 milhões, desse total, R$ 14,7 milhões foram gastos em propagandas em diversas mídias, como tv, rádio, jornais e redes sociais. No entanto, a rede Globo, canal de televisão com maior audiência no país, se recusou a passar em sua programação comerciais da campanha, uma das justificativas da emissora foi a presença de personagens de mídias concorrentes, como a Galinha Pintadinha e a Xuxa. As concorrentes da Globo passaram os comerciais da campanha normalmente, o Ministério da Saúde avaliou que a falta de adesão da principal emissora do país prejudicou a cobertura vacinal de 95% do público-alvo vacinado.

A campanha de vacinação em diversas mídias pode não ser o suficiente, tanto que, com dificuldades de cumprir a meta de adesão vacinal, o governo optou pela volta do Zé Gotinha aos postos de saúde. Em entrevista a Folha de São Paulo, a Coordenadora da imunização na Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, Maria Lígia Nerger disse que: “Não dá para abrir mão, ele faz muito sucesso com as crianças”. Esse fato mostra que a campanha nas ruas e nos postos de saúde ainda podem ser eficientes.

A importância da imunização

O médico Jean Gorinchteyn explica porque os pais devem vacinar seus filhos: “eles devem vacinas as crianças para que desenvolvam proteção contra essas doenças. Uma vez que a vacina é extremamente segura, eficaz e que dá a imunidade, a proteção para aquelas doenças. Então, se eu posso usar uma vacina para que elas tenham proteção, que são seguras com relação a efeitos colaterais e que não vão permitir o desenvolvimento de doenças, é essa a melhor forma que nós temos que praticar para as nossas crianças”.

Lei no Brasil

No país, é obrigatório que os pais ou responsáveis levem menores de idade para vacinar. Essa obrigatoriedade está contida na Constituição Federal, no decreto 78.231, de 12 de agosto de 1976, título II – Do Programa Nacional de Imunizações e das Vacinações de Caráter Obrigatório – artigo 29: “É dever de todo cidadão submeter-se e aos menores dos quais tenha a guarda ou responsabilidade à vacinação obrigatória”. Ainda de acordo com o decreto: “Só será dispensada da vacinação obrigatória a pessoa que apresentar atestado médico de contraindicação explícita da aplicação da vacina”. Caso os pais ou responsáveis não cumpram com esse dever poderão ser autuadas pelo Conselho Tutelar, como diz no Estatuto da Criança e do Adolescente, no artigo 13: “Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais”.


*nome fictício, a pessoa não quis se identificar. 



Newsletter

Receba novidades, informações de cursos, palestras e outros eventos da Fundação 1º de Maio.
Todos os campos são obrigatórios.
2018 Fundação 1º de Maio. Partido Solidariedade. © Todos os direitos reservados.