Fique por Dentro

Dependência química precisa ser encarada como uma doença

imagem aérea de pessoas reunidas em uma rua com barracas improvisadas, para vender e utilizar crack.
Publicado em: 06/julho/18   |   Autor: Ylka Teixeira

Segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde -, o número de pessoas que morrem em decorrência do uso de drogas no mundo é alarmante, cerca de 500 mil por ano. Além disso, o ONUDC - Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito -, afirma que em 2015, cerca de 250 milhões de indivíduos consumiram drogas ao menos uma vez, o que representa 5% da população adulta mundial.

Em algumas nações, como o Estados Unidos, a situação é preocupante. O país é responsável por 25% das mortes em decorrência do uso de drogas em todo o mundo. Grande parte causadas por overdose pelo uso de opiáceos, substancia da qual derivam medicamentos para conter a dor, como a morfina, por exemplo. Além disso, o número de mortes por overdose no país cresceu de forma assustadora nas duas últimas décadas, passando de 16.849 em 1999 para 52.404 em 2015.

No Brasil a situação não é muito diferente, por aqui ostentamos a triste bandeira de maiores consumidores de crack do mundo, representando 20% do consumo total. A droga, que é um derivado mais barato da cocaína, chegou no país no início da década de 1990 e se espalhou rapidamente por todo o território nacional por ser uma droga de efeito rápido e por custar menos que outras drogas.

O crack é fumado em cachimbos improvisados com latas de alumínio ou embalagens de plástico, seu efeito é quase instantâneo, cerca de 20 segundos após o uso, e dura no máximo 5 minutos, o que leva a pessoa a fazer uso da droga várias vezes ao dia, em um padrão de consumo rápido e compulsivo.

Um mapeamento da CNM - Confederação Nacional dos Municípios -, atualizado em tempo real pelas prefeituras do estado de São Paulo, constatou que, até 2017, dos 556 munícipios participantes da pesquisa, 194 declararam ter problemas graves decorrentes do consumo de crack. As respostas levam em consideração dados relacionados à saúde, educação, segurança e assistência social de cada município.

O levantamento oficial mais recente relacionado ao uso de crack no Brasil, é da fundação Fiocruz, realizado em parceria com pesquisadores da universidade de Princeton, nos Estados Unidos a pedido da Senad - Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas. O estudo, divulgado em setembro de 2017, afirma que cerca de 1,6 milhões de pessoas fazem uso regular de crack no país. Esse número representa 0,8% do total da população.

Apenas em São Paulo, primeiro estado a receber a droga no país, dados do governo federal em conjunto com o estadual, estimam que cerca de 400 mil pessoas façam uso do crack. Especialistas na área acreditam que esse número seja muito maior, já que a estimativa do governo leva em consideração apenas os grandes centros urbanos, sem mencionar os pequenos municípios nos quais a droga já chegou. 


Cracolândia

Cracolândia é a denominação popular usada para definir os lugares onde pessoas se reúnem para fazer uso da droga. O termo crack, começou a ser utilizado na década de 1980, em referência aos estalos que a pedra faz quando queimada, e “lândia”, faz referência a palavra inglesa “land” que significa terra. Portanto, segundo esse pensamento, cracolândia seria “terra do crack”.

O termo, porém, é pejorativo e, segundo especialistas, focaliza o problema na droga e deixa de enxergar o usuário como um ser humano com problemas de saúde. Em contrapartida, a OMS- Organização Mundial da Saúde-, classifica o usuário de drogas como alguém com transtornos mentais.

Além disso, existe um senso comum que acredita que o crack seja o motivo da degradação social de quem faz seu uso. Porém, segundo uma pesquisa da Fiocruz, divulgada em outubro de 2016, a droga é consequência da degradação social, e não o motivo. O levantamento, que analisou dados de mais de 200 pessoas que fazem uso frequenta droga, além de entrevistas com profissionais da saúde mental, constatou que a grande maioria dessas pessoas não possuem laços familiares, moradia fixa, trabalho remunerado e estudo, mas que esses problemas, porém, chegaram antes da dependência.

A mesma pesquisa mostra que a maior parte dos usuários de crack são homens negros de até 30 anos. Além disso, 40% deles, vivem hoje em situação de rua, o que os torna mais suscetíveis a sofrerem outros tipos de violência.

A pesquisa salienta o fato de que, de maneira geral, pessoas em vulnerabilidade social extrema estão mais suscetíveis e expostos ao consumo de substâncias que promovam um prazer imediato.  


Olhar público

Em 2017, o último prefeito eleito da cidade de São Paulo, João Dória, lançou o programa “Redenção”. Entre as atribuições iniciais do programa estavam a revitalização da região da luz, onde se concentram um grande número de pessoas para fazer uso e traficar o crack, e a internação involuntária dos usuários. A princípio, uma intervenção policial prendeu 38 traficantes e fez com que grande parte dos usuários se deslocassem para áreas próximas da região.

Especialistas criticaram duramente a ação por considerar que a internação involuntária não seja uma solução para o problema e pelo excesso de força policial usada durante as abordagens dos dependentes químicos.

A ação trouxe luz para o tema que é dos grandes problemas de saúde pública, e sociais, não apenas de São Paulo, mas de todo Brasil.

Entre os dias 18 e 26 de junho deste ano, aconteceu, simultaneamente em todas as regiões do Brasil, a Semana Nacional de Políticas Sobre Drogas. Oficinas, workshops, rodas de conversa e palestras marcaram a semana de prevenção e combate ao uso de drogas no país. O evento, que acontece desde 1999, é organizado pela SENAD - Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas -, e tem como objetivo a conscientização, prevenção e a reflexão sobre o consumo de drogas e seus efeitos.


*Calculo baseado na população brasileira em 2017.

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