Fique por Dentro

Carnaval, festa para todos e as visões morais de alguns.

imagem no rio de janeiro de um bloco de carnaval. A rua está lotada de foliões, ao fundo é possível ver o Corcovado
Publicado em: 21/fevereiro/18   |   Autor: Alexsandro Santos - Secretário Estadual da Secretaria da Liberdade de Expressão Religiosa e Filosófica - SP

“Penitenziagite”, ou penitencia-te, diziam os dolcinianos na Idade Média revoltados com a riqueza temporal eclesiástica. Cegos pela própria crítica do seu fundador Frei Dolcino, estes não apenas acreditavam que a pobreza franciscana era uma virtude e opção, como também uma verdade fundamental para a vida cristã. Todo aquele que não estivesse inserido deveria morrer. Com o tempo, tornaram-se matadores de padres e freis.

Este modo de pensar e agir, que pode acometer homens e mulheres, pode chegar ao extremo, principalmente quando oriundo de um messianismo no qual a urgência de salvar-se leva ao extremo de querer libertar o outro de acordo com a sua própria verdade e maneira de ver o mundo. O resultado disso é que todo aquele não compactua para com a mesma visão deve converter-se ou ser desprezado.

Esta atitude humana se mostra em diferentes épocas e culturas, e não encontra-se somente atrelada às compcepções religiosas. Mesmo com o advento do estado de democracia liberal percebe-se algumas atitudes semelhantes, como no caso de guerrilhas da esquerda ou no temor neurótico que há de um comunismo insistente que se encontra somente na cabeça da direita brasileira.

Dito isto, é necessário olhar para o que acontece no Rio de Janeiro e o modo como o governo lidou com o Carnaval. Parece que o governante não compreende a estrutura do momento em que o País se insere e as estruturas que necessariamente mantém este período de festividade; saindo do foco que tanto se discutiu e se discuti sobre a origem da festa e sua etimologia, o que aqui interessa é a sua capacidade de inserir pessoas comuns num ambiente moderno e frenético que são as cidades hodiernas, com seus prédios que ofuscam a paisagem natural e o predomínio da insensibilidade às festividades populares. Algo que se esquiva num período no qual forças inconscientes e estágios mercadológicos conscientes se apropriam destas para o momentâneo estar de alegria festiva. Por sua vez, não se deve cair na ingenuidade de não se perceber os desvios ocorridos neste breve período, pois é um estágio do indivíduo incluso numa massa para vivenciar estruturas psíquicas e sociais que não são possíveis no mundo real, por exemplo, as fantasias em que homens se vestem de mulheres e vice versa.

No entanto, estas características ultimamente têm sido apontadas pela mídia como o momento atual de extremos em que o País se inserem, o famoso flaflu do hodierno momento político social brasileiro. Neste caso, o Rio de Janeiro, com seu Bispo ou prefeito? Que não tem demonstrado ser constitucionalmente claro, pois se é governante de Estado é compreendido a ser de todos e, por isso, claro nas prerrogativas da laicidade do mesmo. Dito isto, suas falas e comentários e mesmo atitudes relegam o Carnaval há um estágio de loucura desnecessária e que nada tem com o governo estabelecido. Pobre pensar, pois nem na Idade Média mesmo com críticas muitas vezes ferozes como de religiosos tais quais os atuais e moralistas, o carnaval era incluso em um momento que se insere no contexto de alegria e muitas delas críticas dentro de suas músicas e teatros nos quais bispos e senhores de terras eram colocados como homens gordos na sua cobiça e glutões diante de algumas misérias entre o povo.

Dado esse contexto, o movimento do prefeito Crivella assemelha-se à atuação dos dolcinianos, resumida na máxima “ se não está comigo está contra a mim”. Ressalvando-se, no entanto, as motivações que, deste último, diferente da abdicação material prepagada pelos primeiros, exalta o capital e desconsidera todo aquele que não é rico ou que não busca enriquecer, pautando-o como inútil ou fora da graça divina. Este pobre, então, deve ser levado há um templo na capital do mercado brasileiro e lá elevar-se na condição de fiel na busca da graça do Deus dos favores bancários.

Deste modo é necessário entender que a justa medida é a correlação exata para um sistema saudável no âmbito da política pública e ademais numa extensão de uma festividade que é inserida no calendário milenar pelas perspectivas religiosas e inconscientes da comunidade humana; ela não termina na loucura externizada, mas na reflexão pós balburdia, da quarta de cinzas. Sendo asssim, é claro que o dito penitenziagite é colocado para mostrar que entre a boa visão e a boa ação há uma fina camada de racionalidade que poder levar a uma política justa ou a uma infinidade de preconceitos e aberrações no conduzir a humanidade.

Por isso, não há um carnaval, mais sim uma festa de carnaval, onde o transgredir inconsciente vem organizado na massa e definido no possível das várias maneiras de alegrar-se e constituir-se entre os demais no transbordar-se da euforia, com o limite pré-fixado da própria sociedade e do viés religioso que ela se enquadra. Na quarta-feira lembrarás ela da fragilidade e, por isso, da finitude da existência humana, pois do pó feito ao pó voltarás. Festa cíclica onde se alegra para permanecer na sociedade silenciosa e suas dores do indivíduo no rigor do cumprimento do contrato de se viver em sociedade.

Por isso, a festa da carne (psicológica e cultural) requer o olhar de um D. Helder durante mensagem radiofônica da radio de Olinda AM em 1 de fevereiro de 1975, “ carnaval é alegria popular. Direi mesmo uma das raras alegrias que ainda sobram para minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade da vida dura.”

 

Referências 

Idade Media Bárbaros Cristãos e Muçulmanos, organização Umberto Eco; editora, Dom Quixote, 2011, Portugal
Freud Sigmund, o mal estar na civilização, novas conferencias introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1939) tradução Paulo Cesar de Souza, são Paulo Cia das letras editora, 2010

 

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